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Transexualidade na Periferia

Atualizado: Abr 14




Em junho de 2019, o STF (Supremo Tribunal Federal) criminalizou a homofobia e a transfobia. Conforme a decisão, os atos discriminatórios podem ter pena de até três anos, além de multa. Apesar disso, desafios como a transição, a aceitação de familiares e vizinhos e o desconhecimento sobre a vida dessas pessoas ainda estão presentes no dia a dia de quem viveu essas mudanças.


Nathan José, 24, trabalha com Marketing Digital e como Motoboy. Ele se descobriu como homem trans ainda adolescente, entre os 12 e 13 anos.


“Nunca me senti bem com meu corpo , via diferença em mim e entre os amigos da época.. todo adolescente nessa fase gosta de beijar, sair e eu ficava muito reprimido, nunca gostei... até que comecei a não me aceitar da forma que eu era”

Conta o jovem que, desde então, começou o processo de se descobrir como um homem trans.


Morador do bairro Jardim Gaúcho, região periférica de Juiz de Fora, Nathan relata os desafios da desinformação, principalmente para o público periférico. A falta de conhecimento o fez procurar por informação dentro da internet, onde encontrou em um site americano, outros relatos de homens trans que já haviam vivido tudo aquilo que ele estava passando no momento.


Foi essa falta de informação que levou a família do jovem a buscar atendimentos médicos, com o pensamento de que haveria algo de errado com ele. "Na época, minha mãe não entendia nada e só ficou tentando (procurar) ajuda médica o tempo todo, já meu pai achava que eu era lésbica”.


A fala de Nathan representa a de tantos outros jovens que passam por esse processo e enfrentam o desafio de explicar, não só para os familiares, mas também para a sociedade, a sua identidade de gênero. Em 2017, a rede Globo contou durante a novela "A Força do Querer", a história do personagem Ivan, um homem trans que passou por vários desafios durante a transição, incluindo a falta de apoio familiar e a aplicação de hormônios sem acompanhamento médico.


Aos 15 anos, Nathan começou a modificar seu próprio corpo sem ajuda médica, fazendo a aplicação hormonal sozinho. Por sorte, durante esse processo, o jovem encontrou uma Endocrinologista que passou a orientá-lo. Mas, a falta de conhecimento dentro da cidade natal, ainda era um fato, por isso, ele precisou ir para o estado do Rio de Janeiro para dar início ao seu tratamento.


No Rio de Janeiro Nathan encontrou uma psicóloga e uma psiquiatra que o ajudaram com os documentos necessários para a cirurgia e com laudos médicos que puderam comprovar a sua sanidade mental. Desse modo, ele pôde tirar os seus documentos com nome masculino.


Foram anos de idas e vindas ao Hospital Pique Carneiro, no Rio de Janeiro, até que o jovem conseguiu, no antigo HPS, uma psicóloga que cuidava de pessoas trans e aos poucos foi transferindo o seu tratamento para Juiz de Fora.


Depois de sete anos, Nathan finalmente conseguiu em 2020 a sua cirurgia.


“Foram dias de espera na fila do sus pra operar. Eu já não tinha mais esperanças nem condições financeiras pra pagar particular. Quando conheci um programa do HU ( Hospital Universitário) comecei a me tratar com a minha médica e finalmente consegui minha cirurgia”.

Hoje o jovem conta orgulhoso que conseguiu vencer essa batalha e vive bem . “Hoje eu sou o Nathan que sempre me olhava lá trás no espelho e quis ser”.


Apesar disso, desafios como a transição, a aceitação de familiares e vizinhos e o desconhecimento sobre a vida dessas pessoas também estão presentes na rotina de mulheres trans.


Rebeca Gonçalves, 21, é dançarina, coreógrafa e professora. Moradora do bairro Bela Aurora, em Juiz de Fora, ela se assumiu como uma mulher trans aos 19 anos e hoje busca através do meio artístico trazer representatividade e visibilidade para a pauta LGBTQIA+, principalmente dentro da comunidade onde mora.


Quando perguntamos a ela sobre quais os desafios que uma mulher trans enfrenta dentro das periferias, a dançarina cita a questão do desrespeito e da aceitação ao novo. Ela aponta a falta de conhecimento dentro das periferias como a principal fonte para o preconceito


“na comunidade isso precisa ser mais estudado, precisamos ter cursos e mais pessoas trans ativas aqui dentro”.

A fala da Rebeca aponta um cenário difícil para quem é trans no Brasil. Segundo uma

pesquisa realizada pela União LGBT, a pandemia do Covid-19 agravou ainda mais as desigualdades já existentes. Mesmo depois do Supremo Tribunal ter reconhecido a LGBTIfobia como uma forma do crime de racismo, a vida das pessoas trans, principalmente as travestis e mulheres transexuais trabalhadoras, continuam sendo afetadas . Neste cenário, dados preliminares do projeto da ANTRA, TransAção2 , revelam que 94,8% da população trans afirmam terem sofrido algum tipo de violência, motivada por discriminação, devido a sua identidade de gênero.


Apesar dos desafios Rebeca segue erguendo sua voz na luta pelo respeito e aceitação das mulheres Trans. Em 2020 ela se candidatou a vereadora através do incentivo de amigos e familiares, tendo como intuito reforçar a importância da bandeira LGBTQI+ e dar voz a essas pessoas dentro da Câmara Municipal de Juiz de Fora.


Quando pedimos ao Nathan e a Rebeca para deixarem um recado aos jovens, principalmente aos jovens que hoje passam por esse processo de identificação, ambos deixaram a frase: “Não desista dos seus sonhos, o caminho é longo, mas no final vale a pena!”


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