
A Presença que Virou Alameda
A iniciativa, oficializada a partir de um projeto da vereadora Letícia Delgado e aprovada na Câmara Municipal, reconhece a trajetória de Marley exatamente no território onde sua voz ecoava mais forte. O escadão, artéria vital que liga a parte alta da comunidade ao restante do bairro, era o caminho diário deste trabalhador juiz-forano.
👤 Quem foi Marley Júlio Santos Neto?
- Profissão: Eletricista dedicado, conhecido pela competência e pelo sorriso fácil.
- Vocação: Mestre de Folia de Reis do Grupo Carrapatinho.
- Legado: Um líder comunitário que não precisava de cargo para exercer liderança. Organizava, acolhia e ensinava.
- Despedida: Faleceu tragicamente em maio, após um acidente de trabalho no Centro de JF.
Marley não era o tipo de liderança que aparecia em manchetes de jornal com frequência, mas era a base invisível que sustentava a identidade local. Como Mestre de Folia, ele era o guardião de saberes ancestrais. Sua atuação atravessou gerações, ensinando aos mais jovens que bater o tambor e cantar os versos dos Reis Magos é também uma forma de resistir e de dizer “nós existimos” dentro da periferia.
Tragédia e Eternidade
A história de Marley foi interrompida de forma abrupta e dolorosa em maio de 2024. Durante um acidente de trabalho na manutenção de um elevador, no Centro de Juiz de Fora, ele sofreu ferimentos graves. A notícia de sua morte, após semanas de luta no hospital, gerou uma onda de comoção que extrapolou os limites do Ipiranga.
Grupos de cultura popular de toda a cidade sentiram o golpe. Perdia-se ali não apenas um eletricista pai de família, mas um mestre. Alguém que detinha o conhecimento oral das toadas, das fardas e da condução da bandeira. A homenagem no escadão surge, portanto, como uma resposta da comunidade à morte física: se o corpo se vai, o nome fica gravado na pedra e no mapa da cidade.
🎭 A Cultura como Resistência no Carrapatinho
A Folia de Reis é uma das manifestações culturais mais fortes de Minas Gerais. Nas periferias, ela funciona como um elo de união comunitária. O Mestre, figura central, é responsável não só pela música, mas pela disciplina e pela transmissão de valores éticos ao grupo. Ao nomear a alameda com o nome de um Mestre, Juiz de Fora reconhece que a cultura popular é patrimônio vivo.

Um Marco para a Comunidade
Transformar o principal acesso ao Carrapatinho em “Alameda Marley” é um gesto político. Historicamente, logradouros públicos recebem nomes de generais, políticos ou figuras da elite que jamais pisaram naquelas ruas. Ao inverter essa lógica e colocar na placa o nome de um morador, trabalhador e artista local, a cidade valida a história daquela comunidade.
Vale ressaltar que o local, agora rebatizado, tem previsão de passar por reformas futuras. A expectativa dos moradores é que a revitalização física acompanhe a grandiosidade do nome que agora ostenta, trazendo mais segurança, iluminação e dignidade para quem sobe e desce aqueles degraus todos os dias.
A Alameda Marley Júlio Santos Neto passa a ser um marco físico, mas, sobretudo, um lembrete diário de que cultura popular é resistência. Cada degrau agora carrega um nome. E cada passo, uma história que não será esquecida.
O Compromisso da Comunitude
Para nós, da Comunitude, contar essa história é reafirmar nossa missão. É registrar, valorizar e dar visibilidade a trajetórias que constroem a cidade real, longe dos holofotes. Marley vive em cada verso de Folia cantado no Ipiranga e, agora, em cada morador que passar todos os dias, pela Alameda do Mestre Marley.